quarta-feira, 21 de abril de 2010

minha mente murcha, torpe, anestesiada. tateia no escuro a gaveta do criado mudo, sem saber ao certo o que quer. procura uma marca do ontem que parece distante, borradas memórias que ainda persistem, num carrossel de slides sem nexo. uma aspirina no copo d'água, explodindo em bolhas efervescentes, faz o quarto se encher de ruídos, mesmo quando os ouvidos querem o conforto do silêncio que não consegue existir. parece que até mesmo os restos do relógio espatifado contra a parede agonizam em pequenos tiquetaques.às sete e vinte da noite a janela pisca na tela. mais uma indecorosa proposta de amor líquido. como dizer não ao prazer da anestesia, quando tudo que preciso é de um analgésico? a barba que não mais se apara, as roupas que não mais se dobram, o hálito de tabaco e café, as unhas roídas, detalhes de um retrato amarelado pelo tempo que se arrasta.tento disfarçar as olheiras atrás de um corretivo mal aplicado, óculos escuros e poucos sorrisos, mas de nada adianta. nem mesmo meu antes invejado desempenho dá conta de esconder as marcas dessa chuva salgada que se acumula nos cantos dos lábios por noites e noites, meses e meses, talvez até anos.levo a ausência para passear, registrada em algumas fotografias guardadas no celular. numa mão, um cigarro amassado. na outra, uma coleção de buracos vazios na minha história, passam como esse carrossel de slides borrados, de memórias fragmentadas. eu, o marlboro, e os buracos, numa esquina qualquer da cidade, tomados pela apatia dos dias que não me liga.

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