domingo, 18 de julho de 2010

nada é novo, tudo é corrente, como a minha vergonha dos pés. desço correndo as ruas para chegar até você mais rápido, mas tenho medo de ultrapassar os seus sinais. logo eu, até então o descolado cara moderno, subindo a ladeira com uma caixa de bombons na mão e um pedido de compromisso sério ensaiado. fico mastigando você dizendo sobre o almoço, repensando toda a trajetória, por que tudo aqui é tão complicado? desisto.
vejo tudo indo para o lugar certo, e isso me dá medo. vejo seus movimentos milimetricamente assimilados e repaginados, alivio meu mal estar por não ser tão incoerente com o que sinto e falo. volto com o sorriso da certeza do laço dado, mas guardo os bombons no porta-luvas para não perder o topete.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

aos anjos

eu vejo a realidade frente a frente todos os dias. me aparece dura, lisa, uniforme e implacável. olho a realidade cara a cara todo dia, dura, lisa, uniforme. sorrio para ela a cada ato, como que com um formão, todos os dias, arrancando lascas de seu corpo liso, teso, implacável. com os anos, fui aprendendo a remoldá-la todo dia, cuspindo vontades, arrancando lascas, afundando o formão na superfície dura, lisa, remoldável, vulnerável, fria e implacável.
jogo as fagulhas da realidade e as disponho sob meus pés, recontando histórias das minhas escolhas desconexas, remontando as excêntricas histórias que não gosto de repetir, que meus amigos riem ou calam-se ao lembrar, as que conto aos quatro ventos, que confesso em bilhetinhos amassados e nas sessões de psicoterapia. todo dia encarando, lascando, recolhendo, remontando, remoldando e recontando a realidade dura, fria, nua, vulnerável, frágil, vã, tesa e implacável realidade.
as peças lascadas hoje as guardo, saquinhos de veludo violeta armazenam as delirantes histórias que não seriam realidade se não fossem comigo. todos os dias, ponho-me a separar seus saquinhos, frágeis pedaços de tecido violeta onde guardo as memórias que esqueci todos os dias e noites onde fiz apagar com a borracha para más memórias tudo aquilo que tenho que expor para aprender a viver com elas.
por favor, querido leitor específico, dos anjos, alcance a chave que guardo hoje em algum lugar que foi bagunçado por todos esses que entraram, saíram, ficaram usaram, fizeram reorganizar tudo de sua própria forma, fazendo não saber mais nem como sou, nem como deveria ser. onde está a maldita chave?!?!?!?!?!?!

onde está a minha chave?
onde estão os meus livros?
onde está meu princípio? e meu fim?
onde guardo minhas memórias, fundamentos, razões e reais vontades?
será que não sei mais arrumar????